Um blog da diáspora blasée


12.8.08

O despachante

NO BRASIL QUANDO SE QUER FAZER alguma coisa bem feita – entendam o que quiserem – recorre-se a um Despachante. Pode ser matar alguém. Eu não queria matar ninguém. Queria poder trazer uns chouriços e umas morcelas e uns queijos de Portugal e saber que iriam chegar seguramente ao destino. E é para esse tipo de coisas que um Despachante serve. Os meus amigos cariocas já se queixavam que há muito não degustavam essas iguarias, nas noites quentes do Rio, as janelas de meu apartamento abertas, bons vinhos, broa do Capixaba, enfim. O problema é que não se sabia porquê, as malas dos vôos TAP tinham passado a ser apreendidas bem antes de chegarem à esteira. E as conversas já decorriam à volta de avançados modelos de raio x que possivelmente estariam a ser usados pelos políciais e que conseguiriam diagnosticar o mais insignificante chouriço enfiado dentro de um sapato, para grande alegria dos bofes e enorme vergonha dos emigras apanhados no flagra, sempre sofrendo com os risinhos e olhares oblíquos de patrícios chiques europeus e modernosos, na fila do desembarque.
Marcamos um encontro com o Despachante no Le Coin. Era gordo, como todos os Despachantes e seboso. Não tinha pescoço e suava muito. Desculpou-se do suor, enquanto pousava a pasta e pediamos ao Lopes uns tira-gosto e três chops.
Então doutor, qual vai ser o probrema? Perguntou , sem tirar os olhos de cima de mim.

11.8.08

Mercado Modelo à esquerda Elevador Lacerda ao meio e Carol Castro à direita


NA SEXTA-FEIRA ÀS QUATRO DA TARDE estava metida debaixo de um edredon na minha cama, tentando desesperadamente descansar. Muito cansada, mas muito excitada também, quase me senti mal, do tipo bofes a sair pela boca. Tomei um comprimido de novalgina e a metade do outro obrigatório e ao fim de meia hora, dormi. Fiz a respiração preventiva que costumo usar dentro do Airbus para me acalmar. Não me fui depilar porque simplesmente não me conseguia mexer. Pensei, não há-de ser nada, o homem tem-me aturado neste estado, como um herói, prometo que de segunda não passa (não passou). O amor de todos os dias é uma coisa difícil e nós temos prática. Então subornei-o com a Playboy da Carol Castro e disse-lhe: Vá toma o corpo dela e aproveita a minha cabecinha. Além de tudo os dois gostamos demais do Elevador Lacerda.

adenda: obrigada Miguel.

8.8.08

Easy

A MULHER SÁDICA SOU EU. A mulher que não se depila. A parva que trabalha em cima do calhamaço da Leibovitz com as fotografias da Susan Sontag a morrer. A Susan Sontag a morrer. O génio da literatura a passar ao meu lado na rua, mais uma vez, sim e nem lhe ligar. A mulher sádica sou eu comigo mesma. E podem acreditar que não há pior do que eu comigo mesma. Eu ao quadrado. Perguntem a quem sabe. Dou nomes e moradas. Banalidades jogadas fora no consultório do Zieger. Eu posso. Eu pago.

Alive and kicking

24.7.08

22.7.08

Ça va sans dire

EU SEI QUE TU SABES QUE EU SEI QUE TU SABES. De outras coisas. Mas no Domingo sonhei (na vida real) com o Caetano. Então, o fulano andava com a Preta Gil e eu numa ocasião social – daquelas que odiamos quando separados, mas amamos estando juntos, – cruzei-me com ele. Era uma Boca Livre qualquer. E como estava avançada ou talvez um pouco junkie, confrontei-o com o facto. E põe facto nisso dele andar enrolado com a Preta. Ele ficou P da vida. Vi logo. Mesmo sonhando. Sabes como sou perspicaz. Alfinetei-o. Nossaaaaaaa!! Caetanooooooo!! – assim mesmo, como se me estivesse a vir, como elas - Com a Preta?!!!!
Aí ele respondeu , Sim – todo Nescauzinho, todo Pamonha - com a Preta e o que você tem com isso, minina?
Eu acho que tu nunca viste a Preta Gil. Googla-a. Claro que o meu problema nem é ela, é o pai dela, o ministro, o cantor. O daquela música Drão e Nem tão metafísico assim e o caraças. Enfim... A coisa rolou.
A noite lá continuou cheia de babacas e tal, e lá vim para casa. Ou melhor, trouxeram-me a casa, que agora há o problema do Bafômetro, (vá, ri-te). Onde acordei, dia seguinte, paninhos quentes na cabeça, Engove e assim e não corri e não escrevi. Só recebi a notícia pelo Maiquesuel, porteiro, de que o Caetano Veloso tinha passado para saber se era aqui que morava uma portuguesa, uma tal de Tigresa Isabel do Amaral...
Digo-te, acho mesmo que preciso de ti.

ABV - Sympathy for the devil

EU DE SHORTS, rabo de cavalo caminho do calçadão. Ele caminhando na minha direcção de paletó azul escuro impecável àquela hora da manhã. Please to meet you hope you guess my name, oh yeah. O ar ainda fresquíssimo,o sol furando as àrvores da rua dele, já ao meu lado.Páro a corrida. Ele sabia que eu ia parar a corrida? the nature of my game. Olá João. Oi como vai? Não tenho te visto. Ahn? (ele conhece-me?!) Pois... moro por aqui. Aponto vagamente a minha rua. Estamos frente a frente. Sei que estou toda desalinhada. Ele desvia os olhos do meu peito. Sinto uma luz branca no umbigo. E seus filhos? Meus filhos? Sim, estão em férias? Estão, João. Emergencialmente tenho que lhe tocar, senão não vale. Três segundos em silêncio. Não sei onde pôr as mãos, agarro-lhe os braços e digo, Você não sabe do prazer de estar aqui a falar com você! Ele ri, um pouquinho envergonhado. Não lhe largo os braços. Os seus filhos estudam no Santo Agostinho, não é? E acordo.

21.7.08

20.7.08

Me gustas tu

18.7.08

A artista (Ah, ah,ahhhh! ), algures na Bahia, a tirar um curso de escrita criativa...


E APÓS SABER QUE OS BILHETES para o concerto de João Gilberto, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, podem custar a módica quantia de 2.100 Reais. Vou, não vou, vou, não vou, vou?

7.7.08

ABV – marca passo

OS DOIS PRIMEIROS MESES permitiram que conhecesse a rotina do prédio. O vai e vem dos porteiros, dos faxineiros e das domésticas. Passei a acordar a tempo de caminhar no calçadão, entrar no mar e tomar o banho de sal contra o olho gordo e ainda conseguir acompanhar as primeiras movimentações no número 71. Tudo se passava sem muitas complicações. Com o Gustavo fora restou-me inventar à Bia que não conseguia trabalhar em casa e por isso passara a escrever no bistrozinho da livraria Argumento. Não fez qualquer pergunta feliz de me ver pelas costas e parar de lhe encher o saco, com exigências domésticas completamente mesquinhas.

4.7.08

ABV – a lista

E AGORA QUE A NARRADORA ADORMECEU teremos vontade de espiolhar o que minutos antes ela anotara no Moleskine fajuto, adquirido no Camelódromo do Rio de Janeiro, para melhor entender do seu grau de loucura? Estou certa que sim, ou não fossemos todos iguais no que respeita a certos gostos mais mesquinhos e por isso nunca revelados. Assim assumindo e na certeza de que têm pouco tempo, transcrevem-se aqui as linhas, na esperança de que nada se perca e tudo se transforme.

Rio, 3 de Janeiro - JG
- falar com todos os faxineiros e domésticas do prédio
- abordar o carteiro
- não deixar passar um único moço das entregas, muita atenção aos entregadores do Zona Sul, Hortifruti, Drogarias Pacheco ou outros
- Atenção às entregas de restaurantes tradicionais como o Álvaro´s ou ou Le COIN.
-Descobrir quem é o motorista
-Descobrir se tem arrumadeira, faxineira e cozinheira
- Qual a marca do carro?
- Faz dedetização da cobertura?

2.7.08

ABV – por fim peladona em cima da cama King Size

SAÍ DO CARRO E CAMINHEI EM DIRECÇÃO À ESQUINA com a Vieira Souto onde havia um Orelhão. Fingi que estava a falar e observei a rua e o prédio. Sabia que ele morava na cobertura. Um prédio lindo, com aquelas varandas enormes tão típicas dos edifícios da orla. Fiquei uns dez minutos olhando até aparecer um porteiro qualquer querendo fazer uma ligação. Afastei-me do Orelhão, encostei-me à grade do prédio próximo e fingi que estava à espera que ele acabasse, para voltar ao telefone. Ele despachou-se rápido na ligação à filha e quando já se ia embora sorri e perguntei-lhe, o mais candidamente possível, se o músico não morava naquele prédio ali. Olhou-me meio jocoso. Por certo muito fã lhe perguntava o mesmo, fazendo dele um homem finalmente importante e respondeu-me que sim. Seu João morava mesmo ali, mas nunca saía para passear, sequer tomar um cafezinho no bairro. Vi-o inflar e esperar pelo meu desencanto, que não veio. Disso eu já sabia. Era apenas o seu momento de síndico, do qual eu não estava a fim de participar. A merda dos pequenos poderes. Armei-me em madame, dei um tchau e bati com a porta do carro importado na sua cara de babaca. O parvalhão não me largava interessado em saber mais detalhes sobre as minhas intenções. Porteiro metidinho, esse.
Voltei a casa. Preparei um queijo quente e bebi um suco de laranja com cenoura quase fora da validade, que tinha comprado para o Gustavo e que ele não tinha bebido por causa das crises de úlcera. Depois tomei um duche gelado e deitei-me, sem me secar, em cima da cama King Size contente de tanta e recente solidão e fiz uma lista de ações que me permitiriam encontrar o gênio baiano.
Pela janela aberta do quarto ouvia o mar do Leblon e também as cigarras afogueadas de tanto calor. Procurei sentir o cheiro inigualável a Dama da Noite que costuma espalhar-se pelas ruas do Rio nas noites quentes de Verão e caí num sono profundo. Deep, deep, deep waters...

ABV – pequena pausa para encher chouriços

FIZ, EMBALADA PELA MÚSICA, sem pensar uma vez sequer em balas perdidas, toda a linha amarela, via rápida que margeia o Complexo do Alemão. Só encontrei um bocado de trânsito no Túnel Rebouças e nos sinais junto ao Jockey, na Lagoa, onde não há o perigo das balas, mas a insistência dos pivetes, lavadores de vidros. Meti a bolsa verdadeira debaixo do banco e tirei do porta luvas a bolsa do ladrão. Mulher prevenida vale por duas.
Em vez de passar em casa e deixar o carro na garagem, ou talvez porque ainda estivesse pouco à vontade para deambular a pé pela rua, fui direta à João Lira e estacionei em frente ao número 71, bem onde o Flanelinha me fazia sinal. Observar o movimento dentro do carro seria melhor.
Precisei de uns bons minutos para me acalmar e conseguir abrir o vidro para pagar ao garoto preto, do Rio Rotativo, os dois reais que me permitiam ficar por ali.
Além de nervosa, sentia-me culpada. Gustavo ainda não tinha levantado vôo e eu já o driblava. Foi a custo que o atendi e despachei o mais depressa que pude, quando ligou já de dentro do avião, para se despedir. Como era nosso hábito.

1.7.08

ABV – intimidades

ESSA ESTÚPIDA RECORDAÇÃO FEZ-ME, então, rir de mim. Algo relaxante, uma forma de baixar as expectativas dos outros, mantendo o grau de exigência, no que a mim dizia respeito, baixinho, baixinho. Eu era mestre no boicote a mim mesma.
Única forma de me suportar e de me suportarem? Enfim, naquele dia regressei ao Leblon, como se nada de complicado estivesse a acontecer na minha vida, ou melhor, na minha cabeça. Porque para mim, tudo era de uma simplicidade atroz. Eu queria ver o homem, ponto. O homem é que não queria ver ninguém e eu tinha que lhe perguntar o porquê daquela palhaçada lendária, aquele fechar-se em casas de banho aprimorando a voz e o violão, dias a fio. Se havia alguém louco ali, não era eu. Era ele. E não valia a pena, João, tamanho esforço.
(Não. Não tropeço na intimidade forçada, mas quando finalmente o abordasse, não seria para lhe chamar, Seu João.)

30.6.08

Aquela batida do violão (isto está quase uma novela)

VOLTEI AO ESTACIONAMENTO COM O TICKET NA BOCA, just in case – conseguia encontrar os tickets de estacionamento – naquele humor sem precedentes e nem por instantes pensei, como era meu costume, que tanta felicidade só podia descambar num acontecimento de proporções catastróficas. No carro enquanto ajeitava os espelhos, achei que ao contrário de todas as amigas que, nitidamente, estavam um bagaço e eram exploradas na banca, eu continuava nos trinques. Ele iria gostar de me conhecer, a maluquice não é coisa visível a olho nu.
Levantei o assento à minha vontade, girei a chave na ignição, liguei o ar condicionado, acendi o rádio e fiquei sintonizando-o calmamente, até encontrar uma música decente. Parei na JB FM imediatamente fulminada com a coincidência – atentem que tudo eu achava serem acasos e coincidências, sinais divinos para prosseguir no meu objetivo - de estar a tocar Retrato em branco e preto.
Aquela sensação boa que uma música de que gostamos muito pode provocar em nós, paradoxalmente de reconhecimento e de espanto, logo me atingiu, não como um soco, mas como um calor qualquer, vindo de algum lugar do cérebro que o Damásio saberia reconhecer, mas eu não. Recordei um Verão muito especifico, no Alentejo e uma paixoneta antiga que (achei) ainda não era bom lembrar.

29.6.08

FULLGÁS

Aquela batida do violão - após Joss Stone e pré Marina Lima

NO DIA EM QUE O FUI LEVAR AO TOM JOBIM e ao contrário do que seria de esperar, não podia estar mais feliz, nem conseguia esconder tamanha alegria. O que fez com que embarcasse triste, por um lado, mas imensamente confiante na mulherzinha, por outro. Ou não tivessem as coisas sempre duas caras. E claro que havia razões palpáveis, uma ou outra infidelidade passada, que talvez pudessem ensombrar-nos a despedida, mas ficou assente, daquela maneira calada com que os casais selam pactos, que a razão de tal felicidade se devia, simplesmente, ao facto de eu achar que finalmente teria tempo para me dedicar à porra do livro, que não conseguia terminar de escrever.
E foi assim que nos despedimos, in a good mood, no Terminal Dois do único aeroporto com nome de músico, no mundo.

27.6.08

Aos leitores deste blog, todos bons negões



Dêem cabo dela. Deliciem-se. E também para algumas malucas, vá...

Aquela batida do violão II

E NÃO SEI COMO METI AQUELA IDÉIA NA CABEÇA. Ou sequer se a meti, sei lá. Mas lembro exatamente o dia em que soube que já não ia voltar atrás no meu intento. Ou o dia em que tive a certeza de que estava obcecada, pra lá de Marrakesh, como na música. Que faria tudo o que estivesse ao meu alcance para lhe fazer notar a minha existenciazinha alegre. Pensava, muitas vezes, se não estaria igual a um ou outro freak fanático, mas acabava sempre por me desculpar. Eu estava, talvez, maluca, mas era bem superior a um qualquer: os meus intentos não eram agressivos. Egóticos, sim. Nunca agressivos, tenham lá paciência. Só queria que ele me notasse. Para ser mais exata, pusesse os olhos em cima de mim com cuidado, fosse simpático, como eu achava que merecia, trocássemos algumas palavras, o que certamente o faria interessar-se e até convidar-me para um cafezinho.
Embora algo alheada, em tudo eu continuava a aparentar normalidade, mesmo se me começava a ser difícil seguir algumas conversas. Acabava sempre por me perder, sem fazer a mínima do que se falava.
Ter dito – subtilmente – ao Gustavo que, seria interessante aceitar a proposta e ir seis meses para o Japão fazer o tal Job - Rotation, foi só mais uma evidencia. Ou, se quisermos ser literários e é claro que sim, a cereja no topo do bolo.

26.6.08

Aquela batida do violão ou um plágio mais ou menos obscuro

PRECISEI DE POUCO TEMPO PARA DESCOBRIR ONDE ELE MORAVA. Normalmente bastava abrir o Segundo Caderno do Globo, antes da caminhada matinal até ao Hotel Cesar Park, em Ipanema e lá estava um apontamento qualquer, uma notícia miudinha na coluna do Joaquim Ferreira dos Santos, que eu recortava e guardava meticulosamente na caixa de sapatos amiga do ambiente que escondia a custo da minha empregada mineira.
O homem era uma star-eremita. Muito antes de eu chegar ao Rio, o homem já era uma star- eremita. Vivia encafuado no apartamento de quinhentos metros quadrados, com vista lateral de mar, na Rua João Lira, no Leblon, jamais saía à rua e pelo que eu lia nos jornais, parecia levar a sério a máxima sartreana de que o inferno são os outros. Infelizmente não podia estar de acordo com ele. Após alguns anos de desconstrução freudiana - induzida por uma crise aguda de segunda adolescência - tinha ficado muito claro para mim, que o inferno somos nós.

24.6.08

Moleskine

FIXO UMA PORCARIAZINHA QUALQUER NO CHÃO DA RUA, uma folha completamente desproporcional de árvore da borracha, talvez, Merda, há dias que não blogo e no entanto que calmaria é esta na minha cabeça, que pasmaceira? Vale João, que saiu da clausura na João Lira e voltou ao Carnegie. Penso se terá, ele também, problemas com os eletrodomésticos por causa da maresia. [...]
Já o grande Tim Maia dizia que o segredo do seu sucesso era uma média bem doseada entre canções esquenta sovaco e mela cueca. Um louco. Morreu quase em palco. Agora sei porque acabei o livro.
O Zieger voltou a insistir que preciso do colo da mamãe. Fiquei a olhar para ele com cara de parva. Gosto de sessões mais complicadas. Mas esta semana é de pagamento. E nas semanas de pagamento nunca corre bem. I wonder why.

NYC – 22 de Junho 2008

18.6.08

O lenço do Buffon e a nova Livraria Guimarães

NÃO HÁ ASSUNTOS QUE NÃO POSSAM SER LIGADOS. Caso do lenço com que o Buffon tem aparecido em campo e a renovada Livraria Guimarães, em Lisboa. Do lenço gosto. Da livraria não. O Buffon tem estilo, sabe que tem estilo, que é bom, que parece saído do Padrinho para a baliza da squadra azzurra. Pode. O Buffon pode e tem cara de quem pode e sabe que pode. Por exemplo, se o Ricardo aparecesse com aquele lenço e estrelasse uma de suas saídas em falso seria hilário. Por isso ao Ricardo não é permitido o uso de um lenço. Mas ele sabe, coitado. Ao Ricardo, não é permitido sequer abrir a boca, que fala fininho e nos lembra imediatamente que vamos ser submetidos a vários ai jesus de cada vez que os boches amanhã se lembrarem de marcar bem um pontapé de canto. Bem e a livraria? Aquela livraria é uma espécie de Ricardo de lenço. Uma coisa em bicos de pés. Uma coisa que quer ser o que não é. As peruas da Vieira Souto, que têm estatuto, mas não têm cultura e são bacocas no deslumbre pela Europa, iam achar chiquerésimo, tanto lustre, tanta pena, tanto candelabro a fingir de antigo e ainda por cima com livros.
Mas, infelizmente, os livros não interessam nada ali. São peanuts. Ali interessa o pode alguém ser quem não é. A imagem que o dono da nova Guimarães nos quer impingir dele do seu novo status. Livros como naturezas mortas para poucos, lugares ostentatórios e armados ao pingarelho. Quem serão as pessoas normais que terão a coragem de se sentar naquelas poltronas azuis e brancas tão obsessivamente alinhadas, sem pensar que o que se vai seguir é uma reunião de accionistas maioritários do BCP?
Algum ente querido devia dizer-lhe que faz uma triste figura de emergente intelectual ao atar assim o lenço do Buffon ao pescoço. É para isso que serve a família.

15.6.08

foto: sérgio fonseca

10.6.08

Aguardente de Cana, Providência

NÃO INTERESSA. Até porque odeio aquelas recensões críticas, ok, claro, também porque imediatamente após ler um qualquer já me esqueci e portanto seria incapaz de tamanho trabalho esquemático além de que não sou dada a excitações literárias. Ou gosto, ou não gosto. Ou me aquece ou nem me arrefece e até agradeço muito, que nem me expliquem porquê, que me tiraria a cena toda. Enfim que me deixem esquecer, ajudada por uma boa pinga. Menos um, ou dois, ou três. Taras. Não interessa. Manias. Mais ou menos enjoam-me exacerbamentos de quem quer saltar para alguma cueca gira e não tem melhor forma de o fazer – reconheço certa agressividade que tento camuflar adjetivando a cueca – mas vá, aqui dou apenas uso ao dedo, o dedo indicador direito que, vejo agora, loucura à solta, associação livre, como preferirem, também me serve para outras coisas, porque apesar de nauseada de letras me deu saudades de teclar. De blogar. De dizer Olá pá, sabiam que a Granta gosta do português do Brasil? E que eu dei 36 reais, após ler o primeiro parágrafo, imediatamente vidrada na tryp que o Arnaldo Jabor lá fez o favor de esparramar? Esparramar parece-me bem. Deve ter a ver com os velhinhos na capa. As minhas associações são as obviedades do costume. E então amanhã lá terei a bandeira à janela.

Camões

OS PORTUGUESES JOVENS e trabalhadores que agora começam a chegar – o Brasil está na moda e tem imensa falta de engenheiros - são amassados, assediados, queridos pelo mulherio brasileiro, cansado de tanto músculo desorientado, tanto peito raspado, tanta meninice pitbulizada... Parece que não amadurecem nunca e os que amadurecem ou pintam o cabelo, ou se escondem atrás de uns rolexes dourados e de uns sapatos cor de cócó diarreia. Honrosas excepções. E um bom negão. Um bom negão não tem as mariquices dos restantes, concedo.

3.6.08

Rua Farani

NA SALINHA ONDE ESPERAVA DUAS VEZES POR SEMANA, havia duas cadeiras, ainda com os forros protegidos pelos plásticos, que me faziam lembrar os restaurantes chineses de Lisboa. Dois quadros do Sigmund Freud e um outro já gasto, de um simpósio internacional de psicanálise qualquer, no início dos anos oitenta.
Debaixo de uma das cadeiras, aquela onde eu comecei por me sentar, um rádio, normalmente mal sintonizado numa estação de música clássica. A sala não tinha janelas e por isso nenhuma luz natural. Tinha sim um candeeiro de chão que me fazia lembrar uma flor carnívora que é para não dizer, um pipi aberto por onde saía a cabeça de um bébé: a lâmpada 20 watts, que quase não permitia ler as revistas disponíveis. Via a Caras a meia luz.
Pendurado na porta do banheiro, havia ainda algo que não sei se me desconcertava ou dispersava, ou envergonhava. Um quadrinho, de bordado ponto cruz, onde se liam as palavras: PIPI ROOM.
Infelizmente o homem em quem eu jogava todas as fichas, não tinha noção alguma de decoração. Ou pairava acima dela. Foi apostando na segunda hipótese e lutando contra os meus mais básicos preconceitos que continuei, tentando ignorar de alto, que o renomado analista sinalizava o banheiro do consultório onde me desconstruía, com um bordado ponto cruz.

1.6.08

Vai pegando uma cor

QUERIA PROTEGER A CABEÇA, escapar dos altos e baixos que é a habituação ao escitalopram. A vida não tá mansa, não. Morrem-me pessoas à volta. Dizia Maria Madalena de Jesus, velhinha de 102 anos, ontem no Globo, O segredo da vida é viver. Vamos fundo na exigência. Fiz a rua toda no sentido inverso do mar – está frio na cidade – para chegar à Dias Ferreira, onde fica a livraria Argumento e sentar para tomar um chocolate quente, só porque a temperatura baixou aos vinte graus e faz um friozinho. Daí aproveito, bebo vinho, como fondis e calço as botas da Hera.

Apesar do palavreado, da choraminguice declarada com que vos chateio e me chateio e tento sustentar as minhas fragilidades, ia com um fito. Claro. Mulheres sempre têm alguma coisa na cabeça. Queria comprar esse livrinho aí ao lado. O boca a boca é lixado, que era muito bom e tal, uma verdadeira viagem ao interior feminino – e o interior feminino é aquela complicação repelente que só interessa a malucos ou poetas – que havia amiguinhas até que preparavam chás e coisos e se deitavam em redes nas varandas, ou sentavam em poltronas especiais, em cantinhos especiais de suas casas, devorando com cuidadinho, sim, mas devorando, as páginas do dito cujo. Havia até as que se obrigavam a ler apenas cinco páginas por dia ou por noite, tudo para fazer tamanho prazer durar. E a Julia Roberts e as que eu mais gostava, aquelas que depois de terminado o calhamaço tinham abandonado a análise. Uma loucura. Cariocas loucas, malucas, raladas, tristes e tão lindas. Cariocas em ponto de bala.

Lamento dizer, mas o livro. Mas o livro. Ai, que me custa dizer, que agora sei como custa chegar ao fim de um coiso. Mas o livro, o livro, não faz nada, nem dá orgasmos e é uma merda. Não sei onde ando com a cabeça.

Adenda: dos intelectuais, ok? Dos intelectuais.