Um blog da diáspora blasée
1.9.08
31.8.08
29.8.08
28.8.08
Agora falta o podólogo
AINDA COM O ESTRANHO GOSTO METÁLICO da limpeza de pele, a segunda noite de insónia e na estante cada poema impossivel do João Cabral de Melo Neto. Não sei bem o que me parece isto, mas talvez literatura feminina feita por mulheres duas gerações acima da minha. E também me lembro de ouvir dizer que o cérebro encolhe e só volta ao normal algum tempo depois.
26.8.08
24.8.08
22.8.08
A escola romena
EU CORRO NUMA ESPÉCIE DE JOGOS OLÍMPICOS PRIVADOS. Ainda não ouvi ninguém falar da importância dos treinadores, nesta merda. Eu, sem o meu, ia continuar a correr para aquecer. Com ele sou tratada à bruta sempre que choro, que digo que não sou capaz, que não vou conseguir. É uma espécie de não podes viver com ele, nem sem ele. Acontece que eu deixei de querer continuar a correr para aquecer e por isso ando a pão e àgua neste sadismo que tem sido virar-me do avesso a ver se sai alguma coisinha.
O meu treinador rabia-me e eu não me importo nada porque sei que a minha carne é fraca e o espírito vão e sem fome, pra fazer um samba é preciso mais que pretensão.
Corrige-me, vira-me as costas, olha para o que estás a fazer e fica sem paciência quando debito alarvidades maiores que as habituais.
Está sempre a pôr-me no meu lugar. Nunca me amparou o choro em momentos de desalento – que os há – nem nunca me fez festinhas na cabeça.
O meu treinador sabe que os ingredientes para o sucesso são outros que não a compreensão suavezinha ou a emoção luso-brasileira.
Também faz muito bem quando consegue transformar todas as minhas fragilidades em força. O meu treinador deve ter aprendido com os romenos, na altura da Nadia Comaneci. Imagino, mas nunca lhe perguntei, nem vou perguntar que com ele trabalho é trabalho, conhaque é conhaque e não iria tolerar tal intimidade a uma atleta.
Ele abstem-se de falar a maioria das vezes para disfarçar alguma doçura que começou a ousar após a Queda do Muro de Berlim e também porque está sempre muito mais atento às nossas performances do que aos mistérios da linguagem, mas para ele somos animais fáceis de treinar. Uma vez, estando eu fazendo tempos abaixo do exigido para os Jogos, sentou-se à minha frente com uma garrafa de isotónico de açaí, lembro-me como se fosse hoje e disse-me assim, Menina a receita encontra-se por aí num ou dois livrinhos. Eu respondi, Mas treinador, eu não li esses livrinhos e ele replicou, com uma imensa generosidade e uma mal disfarçada irritação na voz, Não entendes? É trabalho, porrada, trabalho, porrada, trabalho, porrada. Ah e raiva. Raiva, menina. Que não se ganham medalhas sem raiva.
20.8.08
Música
SOU MÁ COM PALAVRAS. Precisava ler muito mais para melhorar um bocado. Ou então deixar de beber caipirinhas a uma velocidade descontrolada ou desacostumar-me de cozinhar com um Gin Tónico ao lado da colher de pau.O meu problema é que muito mais que escrever, adoro cozinhar e só cozinho bem bebendo. A minha melhor hora do dia é por volta das oito da noite quando me dirijo à cozinha para preparar o jantar. Antes que me esqueça, o álcool foi para aqui chamado devido à minha dificuldade de expressão oral e escrita. Por causa dos esquecimentos. Sou daquelas pessoas que desenvolve mal uma idéia (não precisava dizer), que se perde, que não tem tino, que substitui as palavras que faltam ao discurso por bengalas, estou sempre a dizer e não sei quê, por exemplo. Chateio-vos, eu sei, mas descansem que me chateio muito mais a mim. E se para mim isto faz parte de uma terapia avançada e tem que ser, não vos ganharei resistência (vêem, a palavra aqui deveria ser outra, mas por estupidez natural e preguiça adquirida não a procurarei) se comigo não vierem até ao fim. Ás vezes não há pachorra para se aguentar os ritmos alheios e por isso é que a masturbação também é uma coisa engraçadíssima.
Mas esperem, esperem lá, que acabo de achar que nem eu vou aguentar esperar mais por mim. Talvez hoje não seja um dia bom, ou talvez a dificuldade que isto está a apresentar tenha a ver com os efeitos secundários que li na bula dos comprimidos. Vim aqui só para dizer qualquer coisinha rápida sobre música e de como ouvir Reginaldo Rossi mudou minha vida e acabo neste estado. Ai meu Deus. Razão tinha a senhora que generosamente, há uns meses, escreveu a pedir-me que evoluísse.
14.8.08
13.8.08
O despachante – end of the affair
ESTAVA CLARO QUE O GORDO ACHAVA QUE O PROBLEMA ERA EU, porque ainda olhando para mim, mas passando por cima de mim, disse cúmplice ao Alfredo, Essas madames Zona Sul gostam de uma encrenca, né doutor?
E chegando-se à frente para que os garçons não ouvissem segredou, Pois pode falar que aqui o Valdisney vai resolver.
Valdisney? Mas me disseram que quem vinha era um tal de Orlandão que conhecia todos os policiais lá na alfãndega...
Mas doutor, tá me estranhando?
Não, desde que você me assegure que vou poder passar os enchidos e os queijos da Serra...
Asseguro sim senhor, ou eu não me chame Valdisney e virando-se para mim, perguntou, E a madame, qual é a sua graça?
Magapatológica, seu otário de merda.
Levantei-me e saí. O Valdisney, como todos os canalhas usava sapatos cor de merda. Um mau agoiro.
Na rua o Alfredo perguntou-me, Estás mal disposta, querida? Mas eu, transida de saudades da terrinha, só conseguia pensar nos chouriços.
12.8.08
O despachante
NO BRASIL QUANDO SE QUER FAZER alguma coisa bem feita – entendam o que quiserem – recorre-se a um Despachante. Pode ser matar alguém. Eu não queria matar ninguém. Queria poder trazer uns chouriços e umas morcelas e uns queijos de Portugal e saber que iriam chegar seguramente ao destino. E é para esse tipo de coisas que um Despachante serve. Os meus amigos cariocas já se queixavam que há muito não degustavam essas iguarias, nas noites quentes do Rio, as janelas de meu apartamento abertas, bons vinhos, broa do Capixaba, enfim. O problema é que não se sabia porquê, as malas dos vôos TAP tinham passado a ser apreendidas bem antes de chegarem à esteira. E as conversas já decorriam à volta de avançados modelos de raio x que possivelmente estariam a ser usados pelos políciais e que conseguiriam diagnosticar o mais insignificante chouriço enfiado dentro de um sapato, para grande alegria dos bofes e enorme vergonha dos emigras apanhados no flagra, sempre sofrendo com os risinhos e olhares oblíquos de patrícios chiques europeus e modernosos, na fila do desembarque.
Marcamos um encontro com o Despachante no Le Coin. Era gordo, como todos os Despachantes e seboso. Não tinha pescoço e suava muito. Desculpou-se do suor, enquanto pousava a pasta e pediamos ao Lopes uns tira-gosto e três chops.
Então doutor, qual vai ser o probrema? Perguntou , sem tirar os olhos de cima de mim.
11.8.08
Mercado Modelo à esquerda Elevador Lacerda ao meio e Carol Castro à direita

NA SEXTA-FEIRA ÀS QUATRO DA TARDE estava metida debaixo de um edredon na minha cama, tentando desesperadamente descansar. Muito cansada, mas muito excitada também, quase me senti mal, do tipo bofes a sair pela boca. Tomei um comprimido de novalgina e a metade do outro obrigatório e ao fim de meia hora, dormi. Fiz a respiração preventiva que costumo usar dentro do Airbus para me acalmar. Não me fui depilar porque simplesmente não me conseguia mexer. Pensei, não há-de ser nada, o homem tem-me aturado neste estado, como um herói, prometo que de segunda não passa (não passou). O amor de todos os dias é uma coisa difícil e nós temos prática. Então subornei-o com a Playboy da Carol Castro e disse-lhe: Vá toma o corpo dela e aproveita a minha cabecinha. Além de tudo os dois gostamos demais do Elevador Lacerda.
adenda: obrigada Miguel.
8.8.08
Easy
A MULHER SÁDICA SOU EU. A mulher que não se depila. A parva que trabalha em cima do calhamaço da Leibovitz com as fotografias da Susan Sontag a morrer. A Susan Sontag a morrer. O génio da literatura a passar ao meu lado na rua, mais uma vez, sim e nem lhe ligar. A mulher sádica sou eu comigo mesma. E podem acreditar que não há pior do que eu comigo mesma. Eu ao quadrado. Perguntem a quem sabe. Dou nomes e moradas. Banalidades jogadas fora no consultório do Zieger. Eu posso. Eu pago.
24.7.08
23.7.08
22.7.08
Ça va sans dire
EU SEI QUE TU SABES QUE EU SEI QUE TU SABES. De outras coisas. Mas no Domingo sonhei (na vida real) com o Caetano. Então, o fulano andava com a Preta Gil e eu numa ocasião social – daquelas que odiamos quando separados, mas amamos estando juntos, – cruzei-me com ele. Era uma Boca Livre qualquer. E como estava avançada ou talvez um pouco junkie, confrontei-o com o facto. E põe facto nisso dele andar enrolado com a Preta. Ele ficou P da vida. Vi logo. Mesmo sonhando. Sabes como sou perspicaz. Alfinetei-o. Nossaaaaaaa!! Caetanooooooo!! – assim mesmo, como se me estivesse a vir, como elas - Com a Preta?!!!!
Aí ele respondeu , Sim – todo Nescauzinho, todo Pamonha - com a Preta e o que você tem com isso, minina?
Eu acho que tu nunca viste a Preta Gil. Googla-a. Claro que o meu problema nem é ela, é o pai dela, o ministro, o cantor. O daquela música Drão e Nem tão metafísico assim e o caraças. Enfim... A coisa rolou.
A noite lá continuou cheia de babacas e tal, e lá vim para casa. Ou melhor, trouxeram-me a casa, que agora há o problema do Bafômetro, (vá, ri-te). Onde acordei, dia seguinte, paninhos quentes na cabeça, Engove e assim e não corri e não escrevi. Só recebi a notícia pelo Maiquesuel, porteiro, de que o Caetano Veloso tinha passado para saber se era aqui que morava uma portuguesa, uma tal de Tigresa Isabel do Amaral...
Digo-te, acho mesmo que preciso de ti.
ABV - Sympathy for the devil
EU DE SHORTS, rabo de cavalo caminho do calçadão. Ele caminhando na minha direcção de paletó azul escuro impecável àquela hora da manhã. Please to meet you hope you guess my name, oh yeah. O ar ainda fresquíssimo,o sol furando as àrvores da rua dele, já ao meu lado.Páro a corrida. Ele sabia que eu ia parar a corrida? the nature of my game. Olá João. Oi como vai? Não tenho te visto. Ahn? (ele conhece-me?!) Pois... moro por aqui. Aponto vagamente a minha rua. Estamos frente a frente. Sei que estou toda desalinhada. Ele desvia os olhos do meu peito. Sinto uma luz branca no umbigo. E seus filhos? Meus filhos? Sim, estão em férias? Estão, João. Emergencialmente tenho que lhe tocar, senão não vale. Três segundos em silêncio. Não sei onde pôr as mãos, agarro-lhe os braços e digo, Você não sabe do prazer de estar aqui a falar com você! Ele ri, um pouquinho envergonhado. Não lhe largo os braços. Os seus filhos estudam no Santo Agostinho, não é? E acordo.
21.7.08
20.7.08
18.7.08
A artista (Ah, ah,ahhhh! ), algures na Bahia, a tirar um curso de escrita criativa...
E APÓS SABER QUE OS BILHETES para o concerto de João Gilberto, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, podem custar a módica quantia de 2.100 Reais. Vou, não vou, vou, não vou, vou?
7.7.08
ABV – marca passo
OS DOIS PRIMEIROS MESES permitiram que conhecesse a rotina do prédio. O vai e vem dos porteiros, dos faxineiros e das domésticas. Passei a acordar a tempo de caminhar no calçadão, entrar no mar e tomar o banho de sal contra o olho gordo e ainda conseguir acompanhar as primeiras movimentações no número 71. Tudo se passava sem muitas complicações. Com o Gustavo fora restou-me inventar à Bia que não conseguia trabalhar em casa e por isso passara a escrever no bistrozinho da livraria Argumento. Não fez qualquer pergunta feliz de me ver pelas costas e parar de lhe encher o saco, com exigências domésticas completamente mesquinhas.
4.7.08
ABV – a lista
E AGORA QUE A NARRADORA ADORMECEU teremos vontade de espiolhar o que minutos antes ela anotara no Moleskine fajuto, adquirido no Camelódromo do Rio de Janeiro, para melhor entender do seu grau de loucura? Estou certa que sim, ou não fossemos todos iguais no que respeita a certos gostos mais mesquinhos e por isso nunca revelados. Assim assumindo e na certeza de que têm pouco tempo, transcrevem-se aqui as linhas, na esperança de que nada se perca e tudo se transforme.
Rio, 3 de Janeiro - JG
- falar com todos os faxineiros e domésticas do prédio
- abordar o carteiro
- não deixar passar um único moço das entregas, muita atenção aos entregadores do Zona Sul, Hortifruti, Drogarias Pacheco ou outros
- Atenção às entregas de restaurantes tradicionais como o Álvaro´s ou ou Le COIN.
-Descobrir quem é o motorista
-Descobrir se tem arrumadeira, faxineira e cozinheira
- Qual a marca do carro?
- Faz dedetização da cobertura?
2.7.08
ABV – por fim peladona em cima da cama King Size
SAÍ DO CARRO E CAMINHEI EM DIRECÇÃO À ESQUINA com a Vieira Souto onde havia um Orelhão. Fingi que estava a falar e observei a rua e o prédio. Sabia que ele morava na cobertura. Um prédio lindo, com aquelas varandas enormes tão típicas dos edifícios da orla. Fiquei uns dez minutos olhando até aparecer um porteiro qualquer querendo fazer uma ligação. Afastei-me do Orelhão, encostei-me à grade do prédio próximo e fingi que estava à espera que ele acabasse, para voltar ao telefone. Ele despachou-se rápido na ligação à filha e quando já se ia embora sorri e perguntei-lhe, o mais candidamente possível, se o músico não morava naquele prédio ali. Olhou-me meio jocoso. Por certo muito fã lhe perguntava o mesmo, fazendo dele um homem finalmente importante e respondeu-me que sim. Seu João morava mesmo ali, mas nunca saía para passear, sequer tomar um cafezinho no bairro. Vi-o inflar e esperar pelo meu desencanto, que não veio. Disso eu já sabia. Era apenas o seu momento de síndico, do qual eu não estava a fim de participar. A merda dos pequenos poderes. Armei-me em madame, dei um tchau e bati com a porta do carro importado na sua cara de babaca. O parvalhão não me largava interessado em saber mais detalhes sobre as minhas intenções. Porteiro metidinho, esse.
Voltei a casa. Preparei um queijo quente e bebi um suco de laranja com cenoura quase fora da validade, que tinha comprado para o Gustavo e que ele não tinha bebido por causa das crises de úlcera. Depois tomei um duche gelado e deitei-me, sem me secar, em cima da cama King Size contente de tanta e recente solidão e fiz uma lista de ações que me permitiriam encontrar o gênio baiano.
Pela janela aberta do quarto ouvia o mar do Leblon e também as cigarras afogueadas de tanto calor. Procurei sentir o cheiro inigualável a Dama da Noite que costuma espalhar-se pelas ruas do Rio nas noites quentes de Verão e caí num sono profundo. Deep, deep, deep waters...
ABV – pequena pausa para encher chouriços
FIZ, EMBALADA PELA MÚSICA, sem pensar uma vez sequer em balas perdidas, toda a linha amarela, via rápida que margeia o Complexo do Alemão. Só encontrei um bocado de trânsito no Túnel Rebouças e nos sinais junto ao Jockey, na Lagoa, onde não há o perigo das balas, mas a insistência dos pivetes, lavadores de vidros. Meti a bolsa verdadeira debaixo do banco e tirei do porta luvas a bolsa do ladrão. Mulher prevenida vale por duas.
Em vez de passar em casa e deixar o carro na garagem, ou talvez porque ainda estivesse pouco à vontade para deambular a pé pela rua, fui direta à João Lira e estacionei em frente ao número 71, bem onde o Flanelinha me fazia sinal. Observar o movimento dentro do carro seria melhor.
Precisei de uns bons minutos para me acalmar e conseguir abrir o vidro para pagar ao garoto preto, do Rio Rotativo, os dois reais que me permitiam ficar por ali.
Além de nervosa, sentia-me culpada. Gustavo ainda não tinha levantado vôo e eu já o driblava. Foi a custo que o atendi e despachei o mais depressa que pude, quando ligou já de dentro do avião, para se despedir. Como era nosso hábito.
1.7.08
ABV – intimidades
ESSA ESTÚPIDA RECORDAÇÃO FEZ-ME, então, rir de mim. Algo relaxante, uma forma de baixar as expectativas dos outros, mantendo o grau de exigência, no que a mim dizia respeito, baixinho, baixinho. Eu era mestre no boicote a mim mesma.
Única forma de me suportar e de me suportarem? Enfim, naquele dia regressei ao Leblon, como se nada de complicado estivesse a acontecer na minha vida, ou melhor, na minha cabeça. Porque para mim, tudo era de uma simplicidade atroz. Eu queria ver o homem, ponto. O homem é que não queria ver ninguém e eu tinha que lhe perguntar o porquê daquela palhaçada lendária, aquele fechar-se em casas de banho aprimorando a voz e o violão, dias a fio. Se havia alguém louco ali, não era eu. Era ele. E não valia a pena, João, tamanho esforço.
(Não. Não tropeço na intimidade forçada, mas quando finalmente o abordasse, não seria para lhe chamar, Seu João.)
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