Um blog da diáspora blasée


16.10.08

Y.M.C.A.

Há uns anos atrás um amigo meu ficou muito tempo apaixonado por uma mulher que conhecera do nada e que já vinha com um copo na mão, numa festa onde também estariam presentes a mulher dele e o marido dela. Ambos (amigo e caso) teriam baixado a guarda e deixaram que a loucura os visitasse por algumas horas. Mais ou menos o tempo em que decorreu o cocktail, mas enfim. Então como duas crianças acabaram saindo dali achando que o facto de terem, quase às escondidas e de forma completamente atropelada - ele afirma que ela tremeu ao escrever o nro. dele - anotado os telefones um do outro, não anunciava nenhuma desgraça. Desculpem o paternalismo com que conto a história, mas é que nem tocaria nela, de tão açucarada e efe-ó-dê-i-dê-á, não fosse pelo final que me interessou, porque me restituiu o amigo com uma simples melodia, dos horriveis abismos da paixão.
Claro que a coisa foi uma desgraça, um amontoado de delírios juvenis, e diz ele - hoje - que da parte dela uma cabal demonstração da infantilidade de certas mulheres, ao que eu, nas habituais conversas sobre o assunto, acrescento quase sempre muito nojentinha e enciumada, Parece que não sabes que todas as escritorazinhas são umas criançolas imbecis. Mesmo as que nada acrescentam à literatura, como era o caso do teu caso.
Os amigos permitem-se estas coisas e lá fomos aguentando a situação dele à custa de muito Skype, (ele ainda mora em Nova Iorque) e diga-se, boa vontade minha e da minha entidade patronal.
Em frente e a saber, ela tornou-se mesmo uma escritora, foi viver com o marido para uma quintarola na Inglaterra e vende que se farta exatamente porque escreve sobre, deixem-me ser ainda mais nojenta (o meu amigo não lê blogs) a alma feminina.
O meu amigo acabou por conseguir fazer o luto, mas ficou uns dois anos sem poder ler suplementos literários de qualquer espécie, (o que lhe fez um bem danado), falando mal da globalização e da democratização da leitura e da internet, não fosse ela aparecer ordenhando vacas, ao lado do maridinho, na quintarola perto de Londres.
Até que felizmente, em Abril deste ano, tivemos a seguinte conversa. Passo a contar, saltando por cima dos olás e de efabulações sobre a boniteza do Barack Obama:
Ele
Ela apareceu-me hoje de manhã.
Eu
Tás a gozar? Ela está aí?
Ele
Não parva. Ela apareceu na net.
Eu
Eu achava que ainda não lias suplementos literários.
Ele
Foda-se.
Eu
Mas estás bem?
Ele
Estou.
Eu
Gostaste de ver a fantasminha.
Ele
Prefiro não ver.
Eu
Sentiste o quê?
Ele
Que nunca tinha dormido com ela.
Eu
Zerámos, então.
Ele
Quase. Consegui achar que estava mais gorda.
Eu
E dizia disparates?
Ele
Sim. Contratou uma Mãe de Santo que estava ilegal em Londres e não dá um passo sem lhe perguntar.
Eu
Tiveste vergonha.
Ele
Não. Já não.
Eu
Sempre te disse que ela não era para ti.
Ele
Eu sei. Uma vez numa festa, dançou o Y.M.C.A. com o marido, com aquela coreografia de enrolar as mãozinhas e tudo.
Eu
Vou aí em Dezembro.

14.10.08

«Ninguém se chama Sara Jéssica»

SARA JÉSSICA TINHA FICADO MUITO TRISTE e ainda não tinha deixado de pensar naquilo que Guto lhe tinha dito. Estava difícil esquecer o timbre da sua voz ecoando atrás dela, na escada de serviço do prédio. A escada por onde ela tinha subido abraçada ao desgraçado na noite anterior, depois de muita conversa, muita dança e algumas garrafas de ice vodka. Sara Jéssica não gostava de beber e aquela tinha sido a melhor invenção para quem, como ela, preferia sempre a Coca Cola Zero. Mas acontece que a lucidez da Coca Cola Zero na night era uma coisa muito brochante e os homens riam daquilo e depois fugiam, sem muita paciência para a indecisão que tal bebida dava nas mulheres.
Guto era lindo e um bocado bruto. Como todos os lindos. Filho único queria logo tudo. E muito, muito tudo e não estava nem aí para problemas de gatas existenciais.
Sara Jéssica não era existencialista, mas para Guto andava lá perto, porque ela lhe pedira um livro de presente de dia dos namorados. E na casa de Guto só havia dois livros na estante, uma Biblia e outro que nunca tinha tido vontade de conhecer. E por isso comprou o livro com maior número de páginas que encontrou na livraria e combinou ir encontrar com ela no Beco das Sardinhas para aproveitar a sexta feira, tomar todas e depois irem para casa dele namorar muito.
Como Guto lhe tinha dado um presente daquele tamanho achou que Sara Jéssica nunca lhe iria dizer não, se depois de transarem de todas as maneiras, ele lhe pedisse uma outra coisinha. Mas havia coisas que nem uma existencialista se permitia, mesmo sob efeito da vodka e da enorme biografia do Paulo Coelho. E então, no comecinho da manhã, Guto muito bonito ainda um pouco tonto e deveras malvado conduziu-a à porta de serviço e disse, Desapareça daqui, sua vagabundinha leitora de Paulo Coelho. E olha fala pra sua mãe que ninguém se chama Sara Jéssica, ah, ah, ah, ah, ah...
(para a Sofia B. em insónia delirante)

10.10.08

M.M.


CHOVE SEM PARAR NO RIO HÁ CERCA DE TRÊS SEMANAS. Logo não há muito o que fazer. Os cariocas andam sorumbáticos. Mas eu hoje acordei assim, uma trademark Bomba. Também com aquele Nobel da Literatura, queriam o quê? Nada. Daí desse lado não dá para querer nada. Quem manda aqui sou eu. Música de fundo: esta.

8.10.08

Papo cabeça no Baixo-Gávea

Ela
Tu leste o Roth?
Ele
Qual Roth?
Ela
O Roth. O Philip Roth. O último Roth. O Fantasma Sai de Cena.
Ele
Esse não é o último Roth. O último é o Indignation.
Ela
Ok. Eu estava a falar do Fantasma.
Ele
(dando um gole no chopp) Gostaste?
Ela
Muito.
Ele
Gostaste do quê?
Ela
Gostei muito do Nathan Zuckerman.
Ele
Achas que o Zuckerman é o Roth.
Ela
Sim. Mas acho mais que ele és tu. Foi isso que gostei.
Ele
Ai não sou não.
Ela
Eu gostei porque achei que a Jamie era eu.
Ele
Gostavas muito que ele ganhasse o Nobel?
Ela
Muito. Ele diz tudo sem dizer.
Ele
Eu acho que ele diz.
Ela
(mexendo com o canudo a caipirinha) Os diálogos...
Ele
Gostava que conhecesses o Luís.
Ela
hum, hum.

5.10.08

O Rio, muito à frente. Que coffee shop você frequenta em amsterdam?


Fernando Gabeira à Rolling Stone.

A felicidade é uma coisa esquisita

ESTOU FORA DE MIM – mesmo sem maconha e tentando ficar muito careta, mas não fico e por isso ando com medo de escrever. Fico aqui calada. Então vi morrer o Paul Newman. Tinha a minha fotografia preferida para postar e não postei porque estou fora de mim, daí o medo de escrever, dizer mais disparates que o habitual. Pontuar ainda pior. Mas nesse dia, lembrei-me de mim e da minha amiga chegadas no Sud-Express, em frente ao Beaubourg à procura de postais com a cara dele, as duas com quinze anos e também de que alguns anos mais tarde tentei voltar a Paris, com outra pessoa, o meu melhor amigo e não me terem deixado, com medo do sexo. Mas nós éramos só os melhores amigos, não queríamos nada a confusão do sexo.

3.10.08

Dia de ir dançar muito. Isto também.

2.10.08

1.10.08

Num jornal.

Ela escrevia. Eu lia assombrada.

26.9.08

Vá, invejem.

HÁ HOMENS QUE TÊM UM CERTO PODER sobre este blog. Como é o caso do Pedro Vieira. Por razões que, às vezes, aparecem óbvias. Até aos vossos olhos. Hoje, comigo-ninguém-pode.

25.9.08

Olhos de ressaca

NÃO FAZIA A MÍNIMA – naquela altura já era um produtor com nome feito no mercado – do porquê daquela fantasia exótica de organizar um evento em que o objetivo era colocar um bando de anormais a ler Machado de Assis, em voz alta, por oito horas seguidas.

A rotina, ou talvez a falta de uma razão para viver. Só podia. Estava assim, desde que Duda o atirara para escanteio, como ela, tão linda, lhe dizia sem dó nem piedade, ao som de todos os cd´s de Martnália, que ele comprara para lhe agradar.

As noites tinham ficado sem graça. E os dias, rodeado de mulheres portuguesas, sem cintura, tornavam-no um homem ressentido. Queria a paixão. Mesmo que ela lhe tivesse mentido com todos os dentes branqueados, que tinha trazido na boca, da última viagem ao Rio. Tão linda, tão linda, tão linda outra vez. Estava cego na luz dos seus dentes e pedia-lhe, nesses tempos sem vergonha, Sorri para mim, Duda, vá lá. E depois acabavam a rir muito daquela estupidez. E era esta a Maria Eduarda de todos os poderes e mais os daquele seu santo, que o deixava totalmente desnorteado. A ponto de organizar maratonas literárias, usando o nome do mulato carioca como pretexto, só para ver se ela aparecia, talvez com saudades do tempo de escola em que, obrigada pelo excelso ministério da educação, aprendera a dizer adeus a todos os seus namorados com olhos de ressaca.

24.9.08

O mar estava a puxar

HAVIA UM PROBLEMA A RESOLVER, mas era Agosto, em Agosto problema algum se resolvia.
Em Agosto havia o Alentejo, as praias do Alentejo com ondas e mar gelado, lancheiras com sandes de Panrico e sumo de laranja Tang que gostava de preparar para as crianças, como sua mãe havia feito para ele e seus irmãos, nos verões da sua infância.
Vasco gostava de coisas simples carros desarrumados e sujos. Mas tinha um problema para resolver e então olhava para os pés e lá estava o problema. Enterrava o chapéu de sol azul na areia e sentava-se na cadeira de lona amarela da praia, tentando descobrir alguma coisa interessante para ler nos vários cadernos do Expresso. E lá estava o problema. Besuntava as crianças com protetor solar e o problema ficava-lhe incrivelmente colado às mãos. Depois da praia, comer ameijoas estava fora de questão e isso é que era mesmo uma chatice, porque adorava os moluscos.
Poderia nunca mais lhe ligar. Mudar o número de telefone.
Em dias de grande alucinação mental achou até que a salvação era finalmente concorrer ao MNE e sair de Portugal. Mas depois sabia por algum acaso, um ou outro cheiro, que continuava apaixonado por ela. E achava que a víbora, com certeza, lhe apareceria também no Uganda, nas bolhas de moet, ele distraído em algum beberete, vendo pretas de lábios giros e rodeado de pretos soberbos e corruptos. Talvez se tentasse a Estónia. Ela nunca lhe apareceria na Estónia. Vasco mergulhou e quando voltou à superfície agarrou-se a uma rocha com muita força, porque o mar estava a puxar muito. Mas infelizmente, ainda teve tempo de pensar nela.

23.9.08

Oversexed again

DEPOIS DE TODOS AQUELES ANOS sem conseguir se interessar por ninguém, aquela súbita vontade enquanto estendia a roupa no varal da cozinha deixou Dona Paula intrigada. Vasculhou o seu dia e não encontrou nada de especial. Nada que pudesse despertá-la da vida quase monástica que levava desde a morte de Cícero, marido extremoso que a prendera num amor de vida inteira.
Acordara às sete e meia, sem sequer ter sonhado com arranjar um grande amor, um sonho ritmado de todas as noites que a deixava esperançosa. Principalmente se, no sonho, o pretendente falasse, Minha querida Maria Paula, num qualquer tom de voz perto do que recordava ser o do falecido.
Depois das abluções tinha descido para tomar café na padaria e comprado couve e laranja da Bahia para a feijoada familiar do Sábado, a que seus três filhos compareciam – mais por falta de imaginação e medo de magoar Dona Paula que por amor filial – com suas estúpidas noras e os diabos dos meninos. Depois subira, arrumara a casa, puxando muito bem os lençóis da cama e limpando a poeira de todos os cômodos. E pôde relaxar, decidindo só estender a roupa no varal depois dos beijos da novela das oito, porque as noites estavam quentes de lascar e dormir cedo era um suplício.
Graças a Deus, Cícero deixara-a bem de vida, sem precisar trabalhar, ou depender dos filhos, mas não gostava de gastar à toa e por isso não tinha comprado um ar para o quarto. Doutor Celso, seu médico alergologista e único homem na sua vida, além dos meninos, seu Zé da Padaria e de Elias açougueiro, também a incentivara muito, uns dois dias atrás, a manter apenas o ventilador de teto mostrando-lhe por a mais b que os ácaros gostavam era de ambientes refrigerados. E acrescentando num romantismo talvez inesperado e que ela achou muito descabido – Doutor Celso sempre lhe parecera um solitário empedernido todas as vezes que tivera que a auscultar para saber de suas crises de asma – que não havia nada melhor para o amor, que o sonzinho das pás de madeira contra o escuro da noite e um ar fresco entrando pela janela.

17.9.08

Blomia Tropicalis

O QUE VEM ANTES? Perguntou-se Helena, na frente do ecrã do laptop que o marido lhe oferecera para poder trabalhar em casa e onde se dispunha a passar parte dos seus dias, exercendo o supremo direito da vingança que é o que fazem todos os bons jornalistas de meia idade, após terem acumulado os ódios de estimação necessários a qualquer existência sadia.
O que vem antes? A história, ou o título?
Nos primeiros anos de jornalismo, era quase sempre chamada para dar o título às matérias. Depois, ao longo dos tempos, nas redações, os colegas continuaram a gostar dos títulos extravagantes que engendrava, para os textos imberbes dos que ainda não tinham carteira do sindicato, nem se permitiam usar a barba que distinguia um jornalista em inicio de carreira e com vontade de se ater apenas ao reportar fino e frio dos factos, de um grande repórter. Ou de um advogado canalha, ou de um economista neo-liberal... Esses sim, seres bem ataviados e principalmente sem medo do sucesso entre mulheres escritoras, advogadas, atrizes de Tchekhov, editoras, enfermeiras, médicas, faxineiras e demais marafonas giras.
Helena sentia-se nostálgica porque acabava de receber a notícia da morte de seu tio-avô Alberto Barata Ribeiro e via-se entrando, pela mão dele, na redacção do Jornal Livre, onde anos mais tarde escreveria a sua primeira notícia – uma breve sobre um acontecimento sem importância, em Lisboa, que lhe levara o dia inteiro a redigir e lhe valera um puxão de orelhas protetor do editor, um advérbio de modo acentuado...
Quando ela só tinha sete anos e usava laços nos cabelos e depois, ao longo da vida, os homens sempre tinham essa vontade de a proteger que a deixava sem pica, ou sem vontade de fazer subir a temperatura de alguns encontros mais ou menos secretos, como o daquela noite em que Pedro a convidara para comer um bife, após o fecho da edição e os dois se beijaram e deram as mãos, sentados nos sofás pejados de Blomia Tropicalis do Snob.

14.9.08

Fantasmas

CECÍLIA ENTROU NO RESTAURANTE de comida a peso com vontade de comer Torta Alemã. Havia seis meses que não cozinhava uma única refeição, mais ou menos desde que Roberto saíra de casa para ir viver com Fernanda, atriz quarentona, completamente desconhecida e por isso com muitos problemas de auto-estima. Assim Roberto lhe colocara a questão, durante as conversas em que o amor deles morria e mesmo assim ficavam satisfeitos por serem terrivelmente verdadeiros um com o outro.
Pousou a bolsa nas costas da cadeira, pegou a comanda e foi até ao buffet pensando em Roberto transando com a atriz problemática. Pensamentos que lhe davam fome de doce e não de comida de sal. Mas obrigou-se a servir-se de um pouco de salada com molho vinagrete baixas calorias e uns quadrados de tofu. Uma coisa que não sabia a nada, não a podia engordar.
Pesou o prato, oito reais, estava comendo cada vez menos e voltou à mesinha do canto do salão, de onde podia ver sem esforço a porta do restaurante.
Cecília achava que não, mas estava já enfeitiçada pelo estranho homem, de ótimo aspecto, que há quatro domingos jantava sozinho na mesinha da frente e que, sem ela notar muito bem, lhe ia acabando com a dor forte que sentia no peito, só porque tinha uns olhos que lhe pareciam de leitor e usava aquelas camisas brancas que lhe ficavam bem, especialmente na parte do corpo que distingue os homens bonitos dos outros, o pescoço.
Deixou-o acabar a refeição, demorando muito e tomando deliciada toda a Coca-Cola Zero, e depois de se satisfazer com a delícia que a levara ali e quando ele chegava com a sua fatia, fez-lhe sinal para que se sentasse no lugar vazio à sua frente.
Oi, meu nome é Cecília. Além de Torta Alemã, você gosta de outras coisas?
Ele riu e comeu um pedaço de torta e disse aquela coisa que tempos depois ainda recordariam, nas vezes em que se amavam bem.
Cecília, deixa eu te falar uma coisa. Se não passar, não é grave. É só porque não passa.

9.9.08

Belzebu

QUANDO ÉRICA CHEGOU EU TINHA ACABADO DE SENTAR, depois de ter feito todo aquele ritual de menininha carioca quando chega à praia: despido a camiseta e os shorts, dobrado tudo meticulosamente, colocado em cima das havaianas, sem um grão de areia, ao lado da cadeira e ajustado muito bem os fios do biquíni. Acho que já tomava minha água de coco, sem sequer ter precisado pedir ao Panela que era o meu barraqueiro preferido. O tal para quem eu nunca precisava pedir nada porque ele adivinhava ainda antes de eu falar, tudo o que eu tinha vontade. As rotinas nem sempre são coisas horríveis, dizia minha avó Miquelina do Carmo e com razão, mas isso eu só fui entender já ela tinha morrido na cama daquele lar, sem saber quem era.

Hoje estou lembrando de Érica, porque ainda sei quem sou e ela era linda – imagino que ainda seja uma mulher interessante – e eu queria muito saber como era uma mulher e quando a vi chegar me deu uma sensação ótima de bem estar e calor e as borboletas que ainda hoje não consigo nem quero muito descrever mas que nunca tinha sentido perto de homem nenhum, nem de João, meu marido e o amor de minha vida.

Isto foi quando já estávamos no Rio ia fazer uns dez anos e a cidade parecia-nos cada vez mais maravilhosa e as balas traçantes no Vidigal em dias de tiroteio, vistas da praia do Leblon também ajudavam. E nós já fazíamos aquele jogo que todo carioca faz de perguntar pro outro, qual a cidade não-Rio, que você mais gosta no mundo? E a minha era Nova Iorque e no shortinho preto da Érica estava escrito New York e quando ela passou por mim para ir sentar com as amigas um pouco mais à frente eu vi as letras brancas no bumbum dela.

Não sabia se o que tinha gostado mais nela era o sorriso lindo e os cabelos queimados de sol, ou o bumbum dela, ou o jeito dela. E não consegui desatar o nó. Essas coisas acontecem na gente com uma rapidez de belzebu e quando damos conta já estam lá o desejo e a vontade e a solução para os dois. Então saboreei mais um pouco minha água de coco gelada e deixei-me ficar a olhar pra ela. Muitas são as coisas diabólicas que passam na cabeça de uma mulher de quarenta anos.

(para a Érica Mader, com as minhas desculpas)

8.9.08

6.9.08

Jornal velho

LÚCIA NÃO DORMIA SEM O COMPRIMIDO 5mg de diazepam ia fazer um ano. Desde que Vergara cansara de esperar que ela deixasse o marido e num telefonema seco e rápido porque transatlântico e no fim do amor ninguém quer grandes contas telefônicas, lhe disse para esquecer, que ele não estaria mais esperando por ela e pelos cinco filhos dela, caso voltasse a Lisboa.
No início e contamos que esse início foi logo no momento em que ela desligou o celular, Lúcia sentiu-se aliviada e isso durou por uns quinze dias. Viver com a culpa no ouvido o tempo todo é uma coisa extenuante. Até para Lúcia, adúltera de outros carnavais. De um tipo de adultério hormonal mais comum aos homens que às mulheres, mas talvez Lúcia tivesse um descontrolo hormonal. Não interessa, ninguém quer saber de estudos bestas, mesmo. Só povos nórdicos se dedicam a isso e é porque não sabem o que fazer ao dinheiro. Nos trópicos temos fome.
Mas depois veio a saudade de Vergara. A saudade de Vergara comprando rúcula para o jantar, a saudade de Vergara calçando meia e dando pulos dentro das calças antes de apertar o cinto. A saudade dele escovando os dentes no duche e ouvindo os noticiários da TSF, nas manhãs em seu apartamento gélido de Lisboa. A saudade de Vergara tomando café igualzinho ao Steve Mcqueen, abrindo a porta do carro e lhe chamando linda.
Enfim, a dor de corno de Lúcia estava difícil de suportar e nem a cidade que ela amava mais que tudo – mais até que Vergara – nem imaginá-lo defecando, como tinha lido nos livros de auto-ajuda, a tirava do torpor em que tinha caído porque, como também é comum nestes casos, tudo a lembrava do vampiro.
Foi ficando desengraçada. Não comia, ou comia demais. Não lia mais jornal, não comprava discos e não fodia, nem com ela mesma, lembrando Vergara, nem com o marido esquecendo Vergara.
Lúcia foi ficando coisa nenhuma. E também perdeu o gosto pelos livros que só sabiam falar de amor, mesmo quando não falavam.
Até que um dia soube que Vergara tinha voltado com a ex-mulher. E isso a salvou e a deixou muito feliz. Tinha ouvido um estudioso – nórdico? –, afirmar que voltar pra ex-mulher é o mesmo que ler jornal de ontem.
Cabeça de mulher loira, que acredita em ciência, é uma coisa muito punk.

5.9.08

SushiLeblon Delivery

Ouriquense
E depois o bobo da corte é a Margarida Rebelo Pinto. Já sei o que vou dar de Natal à minha Tia Adelina. Entretanto vamos lá encapelar nossas nádegas, a bem da monumental sexualidade lusitana.

Voltarei ao assunto

Raimunda

NÃO AGUENTO MAIS OLHAR A CARA de minha patroa. Mas tenho de olhar. Acordo às quatro e meia da manhã, pego a Van e o Pirata e às sete e meia desço na Antero de Quental. Vou caminhando, meio dormindo, até à padaria de grã finos que tem o pão francês que ela gosta. Ela me abre a porta de calcinha e soutien e volta a dormir até às nove.
Boto a mesa do café. Faço suco e faço café amando a bunda flácida de minha patroa. Bunda de fumante. Tem caído muito ao longo desses anos. Por isso aquelas Playboy toda no criado-mudo dele.
Sempre que posso vou nas Americanas e compro uma calcinha nova. Já trabalhei em casa de patroa que usava calcinha linda. Essa não liga pra calcinha. Faz mal. O que eu mais odeio é calcinha bege. Já falei pra ela não usar, porque tira tesão de homem. Ela só tem calcinha bege. E calcinha tem que ter bolinhas ou ser muito colorida.
Troco o lençol toda a sexta. Branco não gosta de foder com a mulher. Branco rico, de quadra de praia do Leblon, faz no máximo, duas vezes no mês. Gosto de falar disso com minhas colegas, quando estamos subindo pra casa.
Só a Jupiara, que trabalha em Copacabana, jura que os coroas fazem toda noite. Ela fala que a cueca do patrão tem cheiro. Já trabalhei pra Alemão e sei que lá também não se fodia e nem precisei ficar cheirando cueca. A Ju é louca. Mas o barato da Ju é outro. Acaba que todo o marmanjo se apaixona por ela e ficam lá fazendo, às escondidas das madame, até alguma coisa dar errado e ela ser mandada embora pelo fodedor arrependido.
Por isso tem umas que não botam pra trabalhar dentro de casa neguinha bonita. Tem que ter algum defeito, ou ser muito velha. Eu sou feia de cara, mas boa de bunda. Minha patroa é que ainda não viu e continua lá, usando aquela calcinha bege. Deixa ela. Todo mês tenho conta pra pagar no agiota.

2.9.08

Achamento

NÃO SEI COMO VOU VIVER. Ontem entreguei o carro, o celular, os cartões de crédito e demiti-me do banco. Tirei as fotos da secretária e trouxe o termos barato que a minha mulher prontamente me ofereceu quando lhe disse que precisava ter café fresco para não adormecer com as minudências do meio da manhã.
A minha mulher é feia. Fotografo-a sempre a olhar para baixo. Mulheres feias ficam melhor se fotografadas assim. Eu sei e é o que faço.
Estou um bocado cansado, houve um tempo em que ainda tratei dos dentes e achei muitas coisas, mas afinal não tenho jeito para estar sozinho. E gosto dela. Faz sopa – homens e crianças devem comer sopa a todas as refeições – além disso considero-a expert em receitas de porco preto.
Na vida, quando se acha alguém assim, vai-se ficando.
O meu chefe era um canalha certinho. Um puxa saco. Um lambe botas de família perfeita, uma filhinha e uma mulherzinha, que por certo também faz sopa. O banco lhe concedeu um leasing improvável e comprou um BMW ainda antes de fazer 35 anos. No meu tempo ninguém tinha BMW´s antes dos cinqüenta. Mas no meu tempo ninguém tinha BMW´s, só o presidente, para deslocações oficiais.
A mulher do diretorzinho é bem feita, mas tem dentes maus. Ainda liga duas vezes por dia. Ele devia pagar-lhe um tratamento dentário. E proibi-la de ligar tanto. O banco dá facilidade no pagamento. Farta-se de trabalhar. É o primeiro a entrar e o último a sair.
Para se ser chefe, horários são importantes. Nada mais é importante. Odeio caras cumpridores para quem a vida não vale nada. Por isso vim embora. De qualquer jeito iam acabar por arranjar um motivo, e me mandar embora. Ninguém gostava de mim no banco. Nem nos outros lugares onde trabalhei. Sou bom demais, bem parecido demais, bem nascido demais. Pessoas bem nascidas são execradas nos empregos. Todos os empregos são lugares de loucos ambiciosos.
Se pudesse não chateava ninguém, a não ser a minha mulher e mesmo assim só quando ela faz aquela sopa de nabiça, que eu não gosto. Mas infelizmente preciso trabalhar. Vera diz que tenho uma péssima relação com o dinheiro. Gasto todo. Não poupo para alguma eventualidade. Um câncer, por exemplo. E o meu deve estar a chegar. Não sei como vou viver.

1.9.08

Na feirinha de Domingo,Gávea, RJ


É, minha filha,memórias custam caro.