Um blog da diáspora blasée
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Música com letras. Há alguma melhor que esta?
na foto: Ella Fitzgerald
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SE COMEÇA BEM, o dia tem duas partidas. A falsa, lá pelas 7 da manhã, quando os dias prometem muito calor, a sala ainda está fresca e da janela, aberta toda a noite, se vê a luz do mar refletida no Hotel Marina. E dá vontade de sair a correr e ir ver como está o mar. Pedalar até ao Arpoador só para no regresso, ver de frente os Dois Irmãos. Momento de incredulidade diário.
A verdadeira, lá pela uma da tarde, quando atravesso a Dias Ferreira para religiosamente pousar a mala numa destas mesas, entrar, pegar num prato e comer as melhores saladas do mundo.
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Que tipo de pessoa recebe convites destes?
A filha dos sonhos da minha mãe.
O INTERFONE TOCOU E AVISARAM QUE O TÁXI já estava à espera. Desceu no social, rodeada de todos aqueles espelhos que sempre a deixavam desconfortável. Encontrou mais três rugas à volta da boca. Demasiados espelhos, demasiada iluminação para aquela hora do dia, para qualquer hora do dia, convenhamos. Lembrou as palavras incisivas do amigo, «tens imenso medo de envelhecer», e pareceu-lhe que não. Que até aqui o caminho tinha sido sem precalços e que por isso não haveria muito a temer.
Deu graças a Deus pela temperatura quase glacial que encontrou dentro do táxi e esperou que o taxista olhasse para trás interrogativo: «Pra onde madame?», displicentemente respondeu cheia dela mesma, «Pra Botafogo. Rua Madalena 65».
O pai, ainda sob o efeito de Dormonid, ansiava por um Ipod num quarto da Clínica Ivo Pitanguy.
Certas merdas são genéticas, como esta de não passar sem boa música...
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EECREVE BALELAS, TEM DEZ ATAQUES DE MAU HUMOR, trata-o mal e depois pede-lhe umas palmadas. «
Certas mulheres deveriam apanhar regularmente, como gongos». Mas só de homens que fizessem exatamente esta cara.
Na foto: James Dean
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ASSIM QUE O CARRO ARRANCOU teve a nítida sensação de que ia vomitar. Pediu ao táxista que estivesse calado, que se sentia mal. Ainda conseguiu ver que estavam perto do MASP, no meio da Paulista. Abriu a janela para apanhar ar e viu que alguém lhe dizia adeus. Um homem que não conhecia, numa cidade que não era a sua. David Lynch, again? Ou qualquer outro filme com potencial para vencer a Palma em Cannes?
Vomitou várias vezes, com o queixo apoiado na janela do táxi em andamento e odiou São Paulo com todas as forças que tinha.
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Do que gosto mais no retrato da Paula Rego: as mãos que me parecem bastante familiares. Já vi muitas vezes as tuas mãos nesta posiçãozinha, meu lindo. E olha lá com atenção... lindas
mãos de galinha...
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Eu hoje
gostava de ter acordado assim.
Na foto Luana Piovani